
O El Niño voltou a ganhar destaque em 2026, principalmente pela rapidez com que as águas do Oceano Pacífico Equatorial se aqueceram e pelas previsões de que o fenômeno poderá atingir intensidade excepcional entre o final de 2026 e o início de 2027. Para a agricultura brasileira, essa situação merece atenção. Alterações na distribuição das chuvas e na temperatura podem interferir no desenvolvimento das lavouras, na disponibilidade de água, na produção animal e na oferta de alimentos.
Em junho de 2026, a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) confirmou o estabelecimento das condições de El Niño. Em 13 de agosto, o Centro de Previsão Climática (CPC) indicou probabilidade superior a 90% de ocorrência de um evento muito forte durante o segundo semestre de 2026 e o início de 2027. O relatório apontou ainda 69% de probabilidade de o fenômeno alcançar intensidade histórica no trimestre de outubro a dezembro (NOAA, 2026).
Esses números precisam ser interpretados corretamente. A previsão de um El Niño muito forte não significa que todas as regiões enfrentarão secas extremas, enchentes ou perdas agrícolas. O fenômeno modifica o comportamento da atmosfera e aumenta a probabilidade de determinados eventos climáticos. A intensidade e a localização desses efeitos dependem também de outros fatores.
O que é o El Niño e por que ele acontece?
O El Niño é um fenômeno climático natural que faz parte do sistema conhecido como El Niño–Oscilação Sul (ENOS). Sua principal característica é o aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial, acompanhado de mudanças na circulação atmosférica.
Em condições habituais, os ventos alísios sopram predominantemente de leste para oeste, deslocando águas superficiais aquecidas em direção à Indonésia e à Austrália. Próximo à costa oeste da América do Sul, águas mais frias de camadas profundas chegam à superfície pelo processo de ressurgência.
Durante a formação do El Niño, essa dinâmica se modifica. Os ventos alísios enfraquecem, o deslocamento das águas superficiais diminui e o Pacífico central e oriental passa a apresentar temperaturas mais elevadas que o normal. Esse aquecimento altera a distribuição de calor e umidade na atmosfera, influenciando a formação de nuvens, as chuvas e a circulação dos ventos.
O El Niño, portanto, não é simplesmente um oceano mais quente. Trata-se de uma interação entre oceano e atmosfera. As mudanças na temperatura da água interferem na circulação atmosférica, que, por sua vez, influencia o comportamento das águas oceânicas.
Como os cientistas identificam e preveem o El Niño?
O monitoramento envolve indicadores oceânicos e atmosféricos. Um dos principais é a temperatura da superfície do mar (TSM), avaliada em regiões específicas do Pacífico Equatorial. Os cientistas verificam quanto essa temperatura está acima ou abaixo da média histórica, identificando anomalias térmicas.
Entre as áreas monitoradas, destaca-se a região Niño 3.4, no Pacífico central. Em 2026, a NOAA passou a utilizar oficialmente o Índice Oceânico Niño Relativo (RONI), que considera as anomalias térmicas dessa região em relação ao comportamento médio das temperaturas oceânicas tropicais.
Em julho de 2026, os dados da NOAA mostraram anomalias de +1,4 °C na região Niño 3.4, +1,7 °C na Niño 3 e +2,9 °C na Niño 1+2, próxima à costa da América do Sul. Também foram identificadas temperaturas elevadas abaixo da superfície oceânica, alterações nos ventos e mudanças na formação de nuvens e chuvas sobre o Pacífico (NOAA, 2026).
As previsões utilizam modelos climáticos alimentados por observações oceânicas e atmosféricas. Os resultados são apresentados como probabilidades e atualizados à medida que surgem novos dados. Uma probabilidade de 90% de El Niño muito forte não corresponde a 90% de probabilidade de seca ou enchente em uma localidade: são previsões de fenômenos diferentes.
Quais são os possíveis efeitos do El Niño no Brasil?
O Brasil apresenta grande diversidade climática, e os efeitos associados ao El Niño não ocorrem da mesma maneira em todo o território. O Painel El Niño 2026–2027, elaborado por instituições brasileiras, indicou maior probabilidade de chuvas acima da média em áreas do Sul e precipitações abaixo da normalidade em partes do Norte e Nordeste. Para grande parte do país, também foi identificada maior probabilidade de temperaturas superiores à média climatológica (Brasil, 2026).
Na Região Sul, o principal ponto de atenção é o aumento das chuvas, especialmente na primavera. Dependendo da frequência e intensidade, podem ocorrer encharcamento, erosão, dificuldades de colheita e condições favoráveis a determinadas doenças agrícolas.
No Norte e Nordeste, a preocupação está relacionada à possível redução das chuvas e ao aumento das temperaturas. Essa combinação pode diminuir a umidade do solo, comprometer a disponibilidade hídrica e aumentar a vulnerabilidade das pastagens e dos cultivos dependentes de precipitação.
O Centro-Oeste apresenta uma situação particular. Condições mais secas podem favorecer a colheita do milho de segunda safra, algodão e cana-de-açúcar. Entretanto, calor persistente e irregularidade das chuvas podem dificultar a recuperação das pastagens e o estabelecimento da safra seguinte.
No Sudeste, as projeções apresentam maior variabilidade. As condições podem favorecer determinadas atividades, como a colheita do café, mas temperaturas elevadas e alterações no retorno das chuvas exigem acompanhamento. Para culturas perenes, a distribuição das precipitações pode ser tão importante quanto o volume acumulado.
Como o El Niño pode afetar o crescimento das plantas?
As plantas respondem continuamente à temperatura, à água disponível no solo, à umidade atmosférica e à radiação solar. Quando as temperaturas aumentam e as chuvas diminuem, a demanda evaporativa da atmosfera tende a se elevar. Nessas condições, as plantas podem perder água mais rapidamente, sobretudo quando a disponibilidade hídrica do solo é insuficiente.
A deficiência hídrica pode reduzir a abertura dos estômatos, estruturas responsáveis pelas trocas gasosas entre folhas e atmosfera. Essa resposta limita a perda de água, mas também pode restringir a entrada de dióxido de carbono (CO₂), afetando a fotossíntese e a produção de biomassa. Temperaturas excessivas também podem interferir no metabolismo vegetal, especialmente no florescimento e enchimento de grãos.
O excesso de água tampouco significa melhores condições de crescimento. Solos encharcados podem apresentar menor disponibilidade de oxigênio para as raízes, comprometendo a respiração radicular e a absorção de nutrientes. Chuvas frequentes podem aumentar a nebulosidade e reduzir a radiação solar disponível.
No Sul, a Embrapa destacou riscos para trigo, cevada, aveia, arroz, soja e milho, incluindo doenças, acamamento, germinação de grãos antes da colheita e dificuldades operacionais. Para o arroz irrigado, a redução da radiação solar durante períodos prolongados de nebulosidade pode prejudicar o enchimento dos grãos (Embrapa, 2026). Isso não significa que todas as culturas terão perdas: os resultados dependem do estádio de desenvolvimento, das condições efetivamente observadas e do manejo.
Doenças agrícolas e condições ambientais
Temperatura e umidade exercem papel importante no desenvolvimento de diversos fitopatógenos. Em regiões com chuvas frequentes, a maior duração do molhamento foliar pode favorecer a infecção por determinados fungos e outros agentes causadores de doenças.
A Embrapa destaca que, durante episódios de El Niño, o excesso de precipitação no Sul pode aumentar a pressão fitossanitária em culturas de inverno e verão. No trigo e na cevada, por exemplo, são mencionados riscos de doenças e de presença de micotoxinas quando condições úmidas coincidem com fases sensíveis (Embrapa, 2026).
Não é correto, porém, afirmar que o El Niño aumenta indiscriminadamente todas as doenças agrícolas. Cada patógeno possui exigências ambientais específicas, e a doença também depende da presença do agente causal e da suscetibilidade da planta hospedeira.
Produção animal e disponibilidade de alimentos
Os efeitos do El Niño alcançam a pecuária pela relação entre clima, forragens e produção de grãos destinados à alimentação animal. Onde as chuvas diminuem, o crescimento das pastagens pode ser limitado pela falta de água. Se o calor persistir, a recuperação da vegetação após a estação seca pode ser prejudicada, aumentando a necessidade de suplementação.
Temperaturas elevadas podem aumentar o estresse térmico dos animais, reduzir o consumo voluntário de alimentos e afetar o desempenho produtivo e reprodutivo. Em regiões com excesso de precipitação, chuvas frequentes podem dificultar a produção de feno e silagem, comprometer a conservação das forragens e prejudicar o manejo das pastagens.
Segundo análises do Cepea/Esalq-USP, o El Niño 2026/2027 representa um fator adicional de incerteza para a pecuária brasileira, sobretudo por possíveis alterações na disponibilidade de grãos, nos custos de alimentação e nas condições de produção de forragens (Grigol et al., 2026).
Alterações na produtividade e qualidade dos grãos, no armazenamento e no transporte podem afetar a cadeia alimentar. Isso não significa, entretanto, que haverá necessariamente escassez de alimentos ou aumento generalizado de preços, consequências que também dependem de fatores econômicos e comerciais.
O El Niño está relacionado às mudanças climáticas?
O El Niño é um fenômeno natural e recorrente; não é provocado exclusivamente pelo aquecimento global. Entretanto, os episódios atuais ocorrem em um planeta cuja temperatura média vem sendo modificada pelo aumento da concentração de gases de efeito estufa.
A Embrapa destaca que o aquecimento global e as alterações ambientais associadas às atividades humanas representam fatores adicionais de vulnerabilidade para a agricultura, especialmente quanto ao aumento das temperaturas, aos incêndios e aos riscos fitossanitários (Embrapa, 2026).
É necessário distinguir os processos: o El Niño corresponde a uma oscilação natural do sistema oceano-atmosfera, enquanto as mudanças climáticas antrópicas envolvem alterações persistentes no balanço energético do planeta. Não se deve atribuir automaticamente uma seca, enchente ou onda de calor exclusivamente a um desses fatores sem análise específica.
O que a agricultura pode fazer diante das previsões?
As previsões climáticas permitem antecipar riscos e orientar decisões de manejo. Isso envolve acompanhar atualizações meteorológicas, respeitar as recomendações do Zoneamento Agrícola de Risco Climático (ZARC), avaliar épocas de semeadura, selecionar cultivares adequadas e adotar práticas de conservação do solo e da água.
Em regiões sujeitas a chuvas intensas, a cobertura vegetal e a conservação da estrutura do solo ajudam a reduzir a erosão. Em áreas com risco de deficiência hídrica, o planejamento da irrigação e o acompanhamento da umidade do solo ganham importância. A Embrapa também recomenda diversificar épocas de semeadura e ciclos de cultivares, acompanhar as previsões e considerar instrumentos como o seguro rural (Embrapa, 2026).
Entre previsões e incertezas: Os desafios da produção agrícola diante do El Niño
O El Niño 2026/2027 apresenta características que justificam atenção especial da agricultura brasileira. As informações divulgadas pela NOAA até agosto de 2026 indicavam um fenômeno em intensificação, com elevada probabilidade de atingir magnitude muito forte e possibilidade de alcançar valores históricos de aquecimento no Pacífico Equatorial.
Para o Brasil, os riscos estão ligados às alterações na distribuição das chuvas e ao aumento das temperaturas. Enquanto algumas regiões podem enfrentar deficiência hídrica, outras estarão mais expostas a precipitações frequentes, excesso de umidade e dificuldades de manejo. As consequências para os alimentos dependerão de como essas condições se manifestarão durante o ciclo das culturas.
As previsões indicam tendências e probabilidades, não acontecimentos inevitáveis. O acompanhamento climático, associado ao conhecimento das exigências das culturas e ao planejamento agrícola, é fundamental para orientar decisões durante o período de atuação do El Niño.
Referências bibliográficas
Brasil. Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais; Instituto Nacional de Meteorologia; Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico; Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais; Serviço Geológico do Brasil; Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil. Painel El Niño 2026–2027: boletim mensal n. 01, junho de 2026. [S. l.]: INPE; INMET; ANA; CEMADEN; SGB; SEDEC, 2026. 20 p.
Brooks, D. Os graves efeitos do “Super El Niño” na América Latina previstos pelos cientistas. G1 Meio Ambiente, 9 ago. 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/meio-ambiente/noticia/2026/08/09/os-graves-efeitos-do-super-el-nino-na-america-latina-previstos-pelos-cientistas.ghtml. Acesso em: 14 ago. 2026.
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Grigol, N.; Penazzi, G.; Carvalho, T. El Niño 2026: clima, grãos e forragens elevam incertezas para a produção pecuária no Brasil. Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada – CEPEA/ESALQ-USP, 12 jun. 2026. Disponível em: https://www.cepea.org.br/br/opiniao-cepea/el-nio-2026-clima-graos-e-forragens-elevam-incertezas-para-a-producao-pecuaria-no-brasil.aspx. Acesso em: 14 ago. 2026.
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